24
maio
13

Obsessão – francisco daudt

Você sabe abrir uma lata de massa de tomate em meio minuto, e ela fica com as bordas certinhas. Por isso, quando alguém ao seu lado tenta abrir uma usando faca de cozinha e socador de carne, você entra em agonia e tem que se segurar para não dizer “Me dá essa lata aqui!” e abri-la pelo outro.

Provavelmente, você tem caráter obsessivo. Não é nenhuma doença -pelo contrário, pode ser uma vantagem na vida. Os obsessivos são pontuais, fazem as coisas direito, são honestos, limpos, meticulosos, precisos, rigorosos, arrumados, perfeccionistas, carregadores de piano, essas coisas.

Claro, isso tem suas desvantagens: ficar acertando quadros tortos na parede da casa dos outros é falta de educação e fazer sozinho o trabalho de grupo “porque senão vai sair ruim” pode ser cansativo. E os franceses dizem que “a pontualidade é a virtude sem testemunhas” (pois ninguém estará lá para ver que você chegou na hora certa).

Os obsessivos também são inclinados ao pensamento binário; “Ou Isto ou Aquilo” de Cecília Meireles é uma homenagem involuntária ao pensamento do obsessivo, pouco chegado a outras cores além do preto e do branco.

Mas quando o paliteiro ganha um rótulo (“Palitos”), quando os rejuntes de azulejos são limpos com cotonete, as roupas arrumadas em dégradé, e você tem que checar várias vezes se desligou o gás, trancou as portas e apagou as luzes antes de dormir, aí é capaz de as coisas estarem descambando para a doença obsessiva (que os psiquiatras chamam de transtorno obsessivo-compulsivo, o famoso TOC).

A origem disso tudo mora no conceito de pureza, que em certas pessoas impera sobre tudo, sendo o impuro o demônio a combater. Um segundo atrasado? Impuro. Torto? Impuro. Não chorou quando a mãe do Bambi morreu? Impuro (um dos sintomas obsessivos mais incômodos é o “mau pensamento”, o pensamento invasivo, o pensamento constrangedor, o pensamento obsceno). Achou outro homem atraente? Impuro (o pensamento obsessivo sintomático mais comum entre os homens é “será que, no fundo, eu sou gay?”).

Freud considerava a obsessão como fruto da cultura: a criança se tornando proprietária da educação rígida que lhe impuseram e ficando mais rigorosa com ela mesma que seus pais, mais realista que o rei, “não são eles que mandam em mim, sou Eu que mando em mim”.

Então, por que filhos de hippies saem obsessivos e filhos de caretas saem hippies? Pelo mesmo motivo: reatividade. Uma pessoa pode ter sua vida dominada pelos outros por ordem direta, como a criança rigorosa acima, ou pelo avesso, por rebeldia absoluta (se ele faz o contrário do que lhe mandam, ele é totalmente controlável).

Crer no controle é pura obsessão. O obsessivo quer tudo “sob controle”, apesar de, na vida, só haver maiores ou menores chances de se chegar ao outro lado da rua inteiro. Controle absoluto? Ilusão.

Mas quando vejo crianças pequenas caprichosas, enchendo seus desenhos com o lápis de cera com o cuidado para não vazar, penso que o caráter obsessivo não vem apenas da cultura, que é também, como dizem os lusos, “da p’soa”.


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